quinta-feira, 12 de novembro de 2009

éramos nove!

fui criada entre mulheres
ruidosas nas frivolidades
e silenciosas nas dores
mulheres que faziam enxovais
e bordavam principes
mulheres com vocação de espera
que aprendiam desde sempre
a calar discordâncias
engolir desprazer
e a sonhar como escape
fui criada entre mulheres
mudas pra gritos e revoltas
cegas pra outras possibilidades
fui criada entre mulheres
ensinadas a confundir bondade
com submissão
que julgavam feio sentir
choravam escondidas
choravam cortando cebolas
e caprichavam nos molhos
para engolir mais tarde
o desprezo de seus homens
com seus olhares ocupados
distantes, distraídos

minhas oito irmãs
casaram
tiveram filhos
e cumpriram religiosamente
todos os rituais cor-de-rosa
se são felizes?
não sei, não sabem...

quanto a mim

fiquei avessa
aos temperos,
aos toques
e as esperas...

me emocionei...

E compartilho com vocês..."E descubro que, desde a infância, sua verdadeira profissão é esperar, como a de todos nós. Ele continua me esperando. Continua esperando ser chamado, notado, percebido, amado."

A ultima coluna do Fabricio Carpinejar DEVE ser lida, o endereço do blog www.fabriciocarpinejar.blogger.com.br

E meu voto pra fato literário está mais do que aberto.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

leveza é o que merecemos...


Um poeminha pra deixar leve a manhã...
" No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento..."


Mario Quintana

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

receita para desassossego...

Eu tenho um amor e uma certa paz, que nunca foi minha...antes uma angústia colocava farelos na cama e perguntas e dúvidas e anseios que não me deixavam aquietar e relaxar, era como seu eu cavasse muito e no escuro nunca estava feliz, um desasossego de alma constante...um sufoco.

Foi dessa outra parte da minha história que lembrei lendo a Carmem...Lendo lá um pedacinho de Cortázar muita saudade do meu amor me veio...e uma sensação de que um bom amor e uma intimidade plena possam curar essa ansiedade...

Mehor dizendo, talvez essa ansiedade um amor acalme, não que sare, por que nunca sara, nunca cega, nunca silencia essa outra nos espiando nos espelhos, cobranco sentidos, essa outra que é feita de nossos restos e sonhos, essa louca que nos azucrinará pra sempre por dentro...cutucando!

De qualquer forma, pra férias de ansiedade receito um bom amor!

No fundo da estrada, pura luz & sossego, o paraíso é logo ali...

Amar é levar o coração pra passear!

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

menino devoto


foto Vicente Sampaio

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

das filhas...

Pegamos um táxi, eu e minha filha, logo o taxista já se rende a eloquência e a simpatia dela, o que me faz reafirmar: 'auto-estima é tudo na vida de uma pessoa'...Suspiro a auto-estima que não desenvolvi no tempo certo, enquanto o taxista suspira a sua filha adolescente e tímida.

Comento que aulas de teatro podem fazer um bem danado, mas logo percebo que a timidez da filha era um sofrimento dele, não dela. A filha ao que tudo indica era reservada e econômica nas demonstrações mas não sofria com isso, tinha gostos "estranhos" ,tinha " jeito" igualmente estranho aos olhos do pai, mas fora isso, era uma menina normal e feliz.

Comento uma passagem do livro Pequeno príncipe onde ele conta que ao exigir que uma borboleta se transforme em general, o que obviamente ela não conseguirá, a culpa é de quem exige, é preciso exigir de cada um o que cada um pode dar...

O fato é que é preciso (e muito difícil) aceitar as pessoas e suas peculiaridades...É culpa nossa as expectativas e os roteiros que criamos a elas, todas as histórias, diálogos e finais "felizes" que provavelmente nunca existirão, tudo que sonhamos e delegamos aos outros é injusto...


_ Talvez o problema não esteja nela, e sim na tua expectativa...E se for assim, este problema é teu!!
Arrisquei.

Ele envergonhado disse: _É,na verdade eu queria ter uma filha mais normal...
E engoliu a ultima palavra ainda mais consciente do quão preconceituoso e ressentido era o olhar que dirigia a filha.

Pobre borboleta!

terça-feira, 27 de outubro de 2009

as escolhas...

Minha filha desde muito pequena diz que foi ela quem me escolheu, explica assim: “eu ficava lá do céu espiando tudo e aí um dia resolvi, é dessa mulher ali que eu quero nascer, ela que vai ser minha mãe”, essa mulher ali era eu, com aquele homem ali que era o pai dela, ela resolveu e veio, simples assim.
Essa teoria espírita ou bem próxima disso é dela, sempre me agradou o fato ter sido escolhida e sempre apesar de rir da convicção dela, acalentei a idéia de que se tratava de uma lembrança anterior.

Novamente foi ela que me ajudou a pensar que aquele “bonequinho de cera”, (palavras dela) deitado sem mais sorrir e dizer bobagem, não era meu pai, “o Vô não está mais ali mãe, está aqui...”(e apontou pro ar), foi assim que ela encarou a sua primeira perda, um outro processo, um final de plano, simples assim.

Uma vez eu escrevi: “ não sei da morte, suas perdas e essa dor de nunca mais”, num tempo que eu ainda não sabia, hoje eu sei e é uma falta diária, dos detalhes, das músicas, dos hábitos, da voz, do cheiro, do abraço, dos conselhos, das brincadeiras, do silêncio, do telefonema de toda noite: “E aí bicho bom, com o tu está?” Falava-se do dia e um “ amo vocês” arrematava a ligação e nos fazia dormir com os anjos. É assim, uma falta em pedacinhos, e dói.

Meu irmão me conta da grande dor que foi não poder comemorar e comentar com o nosso pai a vitória do Inter, o que era hábito deles, sendo ambos colorados doentes e na mesma noite e não por acaso, sonha que estamos numa festa e nosso pai, está bem e lá de longe, nos olha sorridente e de repente sai por uma porta.

Hoje eu quero e mais do que isso preciso desesperadamente acreditar no que sempre acreditou minha filha, preciso dessa certeza de projetos anteriores, escolhas feitas lá no céu e desse olhar atencioso de almas nos protegendo, nos elegendo, sorrindo das nossas façanhas terrestres, torcendo por nós.
Nos esperando do outro lado da porta, quando também estivermos prontos, quando dermos por encerrado nosso estágio.


De uma forma menos doída quero sabê-lo perto, pra sempre, como nosso novo anjo da guarda.

Ele está nos espiando, está tranqüilo, está feliz...

Acredito que se emocionou com o mural de fotos e o cantinho de lembranças que fiz dele.

Saboreou comigo a cerveja com a empada de camarão preferida dele, que comi em sua homenagem.

Viu o Inter ganhar no domingo.

Ouviu as bobagens que o padre falou na missa de sétimo dia.

Estava ali entre nós e todos os abraços que recebemos e deve ter feito uma ou outra piadinha irônica.

Meu pai que nos espia sorridente, com certeza sabe que fui eu que o escolhi e que o escolheria de novo, pra ser meu pai ...

“eu estava lá espiando do céu e apontei lá pra praça de Itaqui um casalzinho novo e apaixonado e decidi aqueles dois ali, quero ser filha deles”...

Não poderia ter feito melhor escolha!!!